Sangue novo para as healthtechs revolucionarem o setor de saúde brasileira

A régua para a inovação na área da saúde nunca esteve tão alta. Segundo as métricas da CrunchBase, plataforma referência na busca de informações comerciais sobre empresas privadas e públicas inovadoras, bem como sobre investimentos e lideranças dedicados a esse perfil, 42% das healthtechs promissoras na América Latina são brasileiras. Internacionalmente, ou no mercado interno, foi essa categoria de startups, focadas no setor de saúde, com soluções que desafogam uma série de gargalos em redes públicas e privadas, que veio em socorro do sistema para bombear eficiência, desde o campo da saúde preventiva até um dos pontos mais críticos e desafiadores do setor; o acesso da população aos serviços de saúde. 

Em meio à crise sanitária sem precedentes na história recente, quando somente as atividades essenciais foram mantidas em funcionamento e o restante do mundo parou, devido ao isolamento social, uma demanda, que vinha se arrastando, acelerou.  De um tabu no setor, tornou-se a “tábua da salvação” para pessoas,  profissionais da área médica e gestores nas esferas públicas e privadas, em tempos de Covid-19. Nada será como antes da pandemia em âmbito mundial. E a medicina não será a mesma no Brasil depois da prática autorizada da Telemedicina, em abril de 2020 (Lei 13.989/20). 

Foram oito anos de discussão sobre essa modalidade de tecnologia na medicina até a autorização chegar, sob caráter emergencial. Para se ter uma ideia do quanto o mercado estava preparado e só aguardava a oportunidade de dar esse salto, o programa TeleCovid, desenvolvido pela w3.care para orientar a população a fim de que não lotasse os hospitais, evitando aglomerações desnecessárias, levantou o aparato focado na humanização do atendimento em três dias”, diz a Dra. Paula Mateus, com a experiência de quem transita com desenvoltura entre três focos dos negócios do mercado healthtech; hospitais, facultativo médico e usuário/paciente (e tem no curriculum mais de 15 programas de saúde, que diminuíram as filas do SUS (Sistema Único de Saúde) e melhoraram a gestão de leitos hospitalares no Sul do País.

Um novo olhar sobre os serviços ligados à saúde

A médica com perfil ativista e feitos inéditos, que deixou os centros cirúrgicos e migrou para o atendimento pré-hospitalar por um problema na visão, enxergou além do que o mercado praticava. Levou mentalidade e metodologias ágeis de startups para um setor tipicamente engessado (como o de saúde pública), modelou uma plataforma inovadora no âmbito privado e agora inaugura, como liderança setorial eleita, a vertical recém-criada e dedicada ao segmento Comitê de Healthtechs & Wellness na ABO2O – Associação Brasileira Online to Offline. A doutora e empreendedora curitibana, assina hoje como Gerente na Relação com Hospitais e Rede na Saúde iD, marketplace que forma o maior ecossistema  de saúde do Brasil com SantéCorp  e Grupo Fleury (que investiu R$ 50 milhões na plataforma  digital), oferecerá  serviços de  telemedicina com prontuário eletrônico e receituário digital, assinaturas para consultas e exames,  saúde corporativa, educação medica continuada e  ofertas de saúde, como cirurgias all inclusive,  de todos os players num modelo agnóstico de ecossistema.

Além de ter, corporativamente, um pé e bandeira da promoção do acesso à saúde fincados na plataforma Saúde iD, com o papel de fomentar o maior ecossistema de saúde do país e mudar radicalmente o modo como a saúde é hoje consumida, cabe a ela, paralelamente,  também a missão de começar com o pé direito os próximos passos históricos da representatividade do setor. “O objetivo alcançado com a Saúde iD foi tornar shoppable o acesso aos serviços de saúde, com base no modelo que desenvolvi na área pública, em âmbito privado. Foi uma jornada muito além de ligar oferta à demanda. Deixei Balneário Camboriú (SC), onde construí um case de sucesso e atingi o mais alto cargo público que um médico pode ocupar, dirigindo um hospital e atuando junto à Secretaria de Saúde, sem obrigações políticas, mas com atuação regulatória. O modelo que desenvolvi lá se tornou referência (primeira vez que alguém fez chamamento público credenciando redes privadas para compra de horários ociosos de redes particulares para suprir a saúde pública) e foi replicado em São Paulo, estado em que, sob plumagem incremental na esfera governamental, alçou voo como Corujão da Saúde. Nesse ponto, me perguntei: mas e o resto do Brasil?”, conta a médica multifacetada, com perfil desbravador, capacidade articuladora, apetite pelo novo, vocação empreendedora, paixão por gente e propósito, que se mudou para a capital (SP).

Mais do que articulação: o  “dom” do relacionamento na área médica

Agora, a doutora e empreendedora terá a chance de responder a essa pergunta, com propósito pessoal e esforços coletivos. Setorialmente, deve impulsionar o caráter revolucionário das plataformas que apoiam o desenvolvimento e desburocratização do sistema de saúde com as novas tecnologias, como as de  robótica, AI e Big Data, Reconhecimento de Imagens, facial e voz, nanotecnologia, Realidade Virtual (VR), Realidade Aumentada (RA) e monitoramento de sensores. Com um raio X do setor em mãos, fará junto aos membros do Comitê um diagnóstico do momento para avançarem por meio de uma agenda propositiva em busca do tratamento  mais adequado às políticas públicas e soluções para as dores e desafios do mercado.

Dentre as pautas dominantes da agenda estão as próximas etapas de regulamentação da Telemedicina, a renovação das regras de publicidade na área médica estabelecidas pelo Codame (Comissão de Divulgação de Assuntos Médicos) e a integração de dados entre saúde pública e privada, mas isso é só o começo”, comenta. Poucos dias depois de assumir a cadeira na ABO2O, a nova líder já fez andar um alinhamento que pode encurtar caminhos e fomentar negócios com outra vertical da economia digital, representada setorialmente pelo Comitê de Mobilidade. “A vertical de saúde tem dores de mobilidade e a vertical de mobilidade tem dores de saúde, por que não trabalharmos em soluções conjuntas e colaboração mútua, criando novos serviços que podem levar benefícios aos usuários e até compor portfólios de modelos  de negócios  com propostas “all inclusive” de ambos os segmentos?”, questiona. 

Mentoria nível hard

Para avançar como setor no compasso do surgimento das novas tecnologias e  mudanças de hábitos sociais é preciso saber onde estão os problemas e como resolvê-los. Nesse sentido, a nova liderança do comitê tem background. “Quando vim para São Paulo (um dos principais mercados nacionais), mapeei por dois anos o modelo de precificação auditando contas médicas do segmento hospitalar. Identifiquei os entraves e tive que atuar como uma “health fintech” para eliminar riscos financeiros e, assim, viabilizar o modelo de negócio inovador que desenvolvi institucionalmente, e quebrou paradigmas”, explica. 

A médica refere-se ao fato de que, tradicionalmente, o luxo sempre esteve ligado ao caráter de exclusividade. “Á medida que o acesso aos serviços de saúde e seu sistema de preços foram burocratizados, ficaram menos transparentes por questões regulatórias e de mercado, tornaram-se um “luxo”, afinal duas palavras antagônicas são luxo acessível. E se não há acesso, é luxo. E tornar a saúde um artigo de luxo é indefensável.  Facilitar o uso de um amplo leque de serviços e produtos de saúde com qualidade, empoderando o consumidor, é tornar a saúde acessível. Esse é um propósito pessoal que compartilho  com o segmento”, conta a nova líder ciente de que as healthtechs nascem com potencial de simplificar e tornar as ações das lideranças e colaboradores mais eficientes e humanizadas.

A doutora, que sempre gostou de estar mais perto das pessoas e pacientes, se orgulha de estabelecer uma relação mais humanizada com eles (em bate-papos, cafés e rotina hospitalar). também teve uma singular oportunidade: “tive a chance de receber feedback do mais alto nível de stakeholders da área de saúde do País ao ser escolhida como uma das executivas abaixo de 39 anos com case de sucesso (no meu caso, um modelo publico hospitalar) para participar do CBEXs do Futuro, programa do Colégio Brasileiro de Executivos de Saúde, voltado a profissionais destacados em nível de liderança. Esta escuta apurada das dores de ambos os lados fez com que a doutora, também em empreendedorismo, criasse um novo modo de operação e relacionamentos na área médica, que faz sentido, uma vez que o próprio ministério da Saúde estimou em 2019 que a atenção primária, prestada em unidades básicas, poderia resolver 85% das demandas dos pacientes.

“Agora, como liderança do comitê quero dividir o expertise adquirido na minha trajetória e trocar conhecimentos para ressignificar as relações entre consumidores e sistema de saúde nesse momento de “boom” do ecossistema de healthtechs. Já temos um webinar sendo preparado para debater perspectivas, desafios e tendências no atual cenário de transformação digital que estamos protagonizando”. Atualmente, ainda não há um unicórnio brasileiro figurando entre os 38 existentes no mundo, mas o comitẽ que veio para fazer as healthtechs brasileiras decolarem já está montado.

Segundo Edi Mariano, Diretora de Relacionamento da ABO2O “a criação do comitê foi um importante passo para o segmento, pois permitirá promover conquistas e avanços em políticas públicas e regulatórias, gerando uma maior aplicação de novas tecnologias com o objetivo de democratizar o acesso a saúde e bem-estar. Atualmente, contamos com mais de 120 empresas associadas sendo que cerca de 20 atuam no segmento de Healthtechs. Essa representatividade setorial buscará influenciar positivamente os debates públicos em favor da inovação, auxiliando as empresas que atuam no segmento através de compartilhamento de informações e suporte jurídico”.

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